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Jorge Ferrão Defende Nova Agenda Estratégica para a Cooperação Académica

Jorge Ferrão Defende Nova Agenda Estratégica para a Cooperação Académica

O Reitor da Universidade Pedagógica de Maputo (UPM), Prof. Doutor Jorge Ferrão, participou, nesta quarta-feira, 27 de maio, no Painel 4 do 1º Fórum de Reitores Brasil–África, dedicado ao tema “Propostas e Encaminhamentos para as Relações Académicas entre o Brasil e os Países Africanos”.


Na sua intervenção, Jorge Ferrão defendeu que a cooperação entre o Brasil e África deve entrar numa nova fase, uma fase menos centrada na assinatura de acordos, na mobilidade individual ou na visibilidade institucional, e mais orientada para a construção conjunta de capacidades científicas, tecnológicas, pedagógicas e institucionais. Para o Reitor da UPM, o momento exige a passagem de uma agenda predominantemente diplomática para uma verdadeira agenda estratégica, capaz de produzir resultados concretos para as universidades, os sistemas de ensino superior e os povos dos dois lados do Atlântico.


Segundo Ferrão, aquilo que deve unir o Brasil e os países africanos não é apenas a história, a língua ou a memória comum, mas sobretudo a responsabilidade partilhada de construir respostas para os grandes desafios do presente e do futuro. Neste sentido, sublinhou, o Fórum deve ser entendido como uma plataforma de definição de caminhos concretos para uma cooperação académica mais produtiva, mais estruturada e mais transformadora.


Um dos pontos centrais da sua intervenção foi a defesa de uma mobilidade académica em dois sentidos. Para Jorge Ferrão, a mobilidade não deve ser vista apenas como deslocação de estudantes ou docentes africanos para instituições brasileiras, mas como circulação mútua de saberes, experiências, investigadores, professores, estudantes e soluções. A cooperação Brasil–África deve permitir que universidades africanas aprendam com o Brasil, mas, também, que o Brasil aprenda com África, reconhecendo que o conhecimento não tem apenas um centro de produção, nem uma única direcção de circulação.


O Reitor da UPM insistiu, igualmente, na necessidade de transformar os acordos existentes em instrumentos vivos de cooperação. Na sua perspectiva, o grande desafio já não é sobre o número de acordos assinados, mas sobre as capacidades duradouras que esses acordos podem construir. A cooperação académica deve deixar de ser um exercício formal e passar a produzir efeitos mensuráveis na formação avançada, na investigação aplicada, na inovação, na qualidade do ensino e na capacidade de resposta das universidades aos problemas complexos das sociedades. Neste contexto, Ferrão destacou áreas estratégicas que podem aproximar mais o Brasil e os países africanos, nomeadamente a agricultura, a segurança alimentar, as energias renováveis, a inteligência artificial, a mineração, a ciência, a tecnologia e as ciências humanas. Para Moçambique, estas áreas não são apenas campos de investigação académica, mas, sectores directamente ligados ao desenvolvimento nacional, à soberania económica, à segurança alimentar, à inclusão social e à construção de um futuro mais sustentável.


Ao abordar a questão dos minerais críticos, o Reitor da UPM chamou a atenção para a necessidade de uma cooperação que não reproduza padrões históricos de exploração. Sublinhou que a África não pode voltar a ocupar o lugar de mero fornecedor de matérias-primas, enquanto os seus povos permanecem como observadores dos benefícios gerados pelos seus próprios recursos. A exploração de minerais estratégicos deve estar associada à formação de quadros, à transferência de tecnologia, à investigação local, à industrialização, à agregação de valor e ao fortalecimento das instituições nacionais.


Outro ponto relevante da intervenção de Jorge Ferrão foi a Inteligência Artificial na educação. O Reitor observou que, em Moçambique, a IA representa uma grande oportunidade, mas, também, revela desigualdades tecnológicas, pedagógicas e institucionais. Muitos estudantes estão a migrar rapidamente para ambientes digitais, enquanto uma parte significativa dos professores ainda enfrenta dificuldades na transição do analógico para o digital. Esta diferença, segundo Jorge Ferrão, não deve ser interpretada como resistência dos docentes, mas como resultado de limitações concretas, incluindo falta de formação, insuficiência de equipamentos, acesso irregular à internet e ausência de apoio institucional consistente. Para o Reitor, o professor do futuro não será substituído pela Inteligência Artificial, mas terá de aprender a utilizá-la como ferramenta pedagógica, crítica e criativa. Ao mesmo tempo, alertou que o simples uso de redes sociais ou plataformas digitais pelos estudantes não significa, necessariamente, domínio do conhecimento. Saber usar tecnologia não é o mesmo que saber pesquisar, interpretar, seleccionar informação, produzir pensamento crítico e transformar dados em conhecimento útil para a sociedade.


A intervenção do Reitor da UPM também colocou a educação no centro da discussão sobre o futuro. Para o Prof. Doutor Jorge Ferrão, investir na educação é muito mais do que cumprir uma obrigação institucional ou governamental; é assumir uma posição clara em relação ao futuro dos países. A educação deve ser vista como investimento estratégico na capacidade científica, tecnológica, democrática e humana das nações.


A participação da Universidade Pedagógica de Maputo no 1.º Fórum de Reitores Brasil–África reafirma, assim, o compromisso da instituição com uma cooperação internacional orientada para resultados concretos, para a formação de capacidades locais e para a produção de ciência útil aos países e aos povos.


O Fórum que decorre em Brasília reúne dirigentes universitários, académicos, decisores públicos e representantes de instituições de ensino superior do Brasil e de diversos países africanos.
Por:
Alves Manjate, especial para o GCI-UPM

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